Além do horizonte



Fly, além do horizonte – experiência 01
Dia 06 de outubro de 2018
Voar nem é o objetivo, assim como tão pouco o foi velejar. No principio se tratava de deixar a vida me levar para aonde o horizonte faz a curva. A visão de horizonte, da minha janela na torre da infância, era curta. Via uma caixa d’água, um gramado ora arrumadinho ora desenfeitado, e uma ilhota de plantas com esconderijo no meio. Era bom. Suficiente para eu me movimentar com a visão de mundo que uma formiga que mora na cozinha tem. Mas aos oito anos subi na caixa d’água com altura suficiente para ampliar minha mente. De lá o percurso feito até alcançar a linha do horizonte era muito maior. Cabia mais mundo. E era verde. Um verde de plantação com os contrastes do trigo, da soja, do milho. Dez metros apenas e um diâmetro de visão de quilômetros. Lá em cima senti o vento no rosto, fechei os olhos e vi além. Aos doze me mudei para um prédio de vinte andares. Era literalmente uma torre. Lá de cima, a céu aberto, parecia que eu ia tocar as estrelas. Esperava a cidade dormir para ir para lá falar com Deus. Queria ouvi-lo no sussurro na brisa, no vento e nas estrelas cadentes. Estava loucamente apaixonada pelo mundo que eu conhecia, foi quando conheci Renato; sim o Russo.  Já nesse tempo, ao andar pelas ruas, eu imaginava se as pessoas sabiam quanta beleza havia no espaço entre elas e o resto do mundo.
Paramotor, experiência number one
Voar nos eleva e leva além. Cada viagem, cada percurso nos conduz a uma experiência de amplitude. Ver por terra tem seu encanto, mas quando vc olha de cima, consegue compreender a imensidão, as múltiplas possibilidades e enxerga com precisão os caminhos que levam a construir a história. Consegue ver o esmero. Compreende a imposição do homem sobre a natureza e seu convívio com o meio ambiente. Abre-se uma nova perspectiva que conduz a um ponto de vista diferente, aquilo que era banal se torna especial.
Hoje foi meu primeiro contato com a galera do paramotor. Olhar pra eles de perto é uma mistura de café com leite e chocolate. Você fica imaginando as histórias de cada um, e o que os levaram ali. Na simplicidade nasce o transcendental, aquilo que toca teu coração hoje, e que você levará como exemplo pela tua vida inteira e pelas gerações que te precederão.  
De igual para igual, olho no olho, vi meninos virarem homens, homens virarem meninos, cordeiros virarem leões. Sinto que a adrenalina é só uma desculpa para imprimir no outro o que cada um leva no coração. Senti irmandade, até um espírito de competição das boas, mas tudo de um jeito genuíno, impar, singular.  Homens alados incentivando outros homens a voar. Vejo tanta dedicação envolvida...mas principalmente a aceitação de que o sopro de Deus é que manda, ele te dá e te tira a possibilidade de ver as coisas sob outros ângulos. Sem vento não dá vôo, com muito vento também não. Hoje não deu. Vamos aguardar a próxima jornada e confiar.
Foto: Grava Fly

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